terça-feira, 11 de junho de 2013

O livro de Dante

 De longe, Dante avistou aqueles dois. Uma ele conhecia. Era quem deveria matar. Mas o rapaz, Dante não tinha ideia de quem poderia ser. Porém pouco importava, pois o rapaz era um mero mortal e se não causasse problemas, ele o deixaria vivo, afinal sua missão era dar fim à vida da garota. Junto com Dante, haviam mais cem demônios. Seu pequeno exército.
            Ele se encontrava no alto do Big Bang, apenas observando os dois fugirem dos demônios. Pensou: “Como esses dois podem ser uma ameaça se nem dar conta dos demônios conseguem? Além disso, são covardes, pois apenas fogem”.
Ficou lá no alto, observando por mais alguns minutos enquanto os dois chegaram a um campo. E foi aí que Dante entendeu tudo e ficou surpreso: Os dois deram cabo a cem demônios em menos de trinta segundos. Nem ele, considerado um dos mais fortes, conseguiria tal feito. Ficou intrigado.
            Após a matança, os dois seguiram viagem. Geralmente, Dante teria os matado logo de cara, porém sua curiosidade falou mais alto e ele resolveu segui-los. Dante tinha cabelos escuros e olhos verdes. Seu porte físico era de um homem saudável próximo dos trinta anos. Trazia junto de si duas katanas, e tinha aberta em suas costas um par de asas pretas. Eram asas enormes e capazes de suportar horas e horas de voo. No lado esquerdo do seu rosto havia uma tatuagem. Quem olhasse de relance não entenderia. E mesmo, muitos que olhassem com atenção também não saberiam o que era aquilo. Poucos saberiam que quem trazia aquela marca em seu rosto era um aliado do Diabo.
            Dante seguiu os dois jovens, voando acima deles a uma altura que eles não pudessem ver. Foram quase duas horas de voo, até que os dois decidiram parar. Ficaram ali por aproximadamente quinze minutos, até que algo aconteceu. E, pela primeira vez após muito tempo, Dante estremeceu. Das sombras de dois prédios, vinham dois jovens, um rapaz e uma garota. Mas não foi isso que fez com que Dante sentisse medo. Junto dos dois estavam, nada mais nada menos, que Gabriel e Rafael.
Durante todos os anos, Dante agia o mais rápido possível para evitar que isso acontecesse. Ele sabia que se encontrasse com os dois, provavelmente sua vida estaria acabada. Então, decidiu se esconder.
            Dante ouviu aquela voz em sua cabeça: “ – Dante, por que não se junta a nós?”.
Se desesperou. Eles sabiam que ele estava ali. Agora era questão de tempo para seu fim. Pagaria por todo o mal que fizera. Como não tinha mais escolha, resolveu atender ao pedido de Gabriel.
- Olá, Gabriel. Olá, Rafael. Há quanto tempo, hein?
- É, filho, há muito tempo mesmo. Acho que você chegou atrasado para esses dois.
- É. Minha curiosidade acabou condenando minha vida. Talvez agora, eu encontre paz finalmente.
- Acho que não dessa vez. Não por nossas mãos. – Falou Gabriel.
- Susanna, Damon, este é Dante. Ele foi o responsável pela morte de vocês dois. Mas, felizmente, conseguimos chegar a tempo, desta vez, para salvá-los. – Disse Rafael.
- Como assim, Rafael? Como ele pôde ter nos matado se estamos vivos?
- Daqui a algum tempo, quando for o tempo certo, explicarei a vocês, minha cara.
- Você é esquisito – Comentou Susanna, irritada. – Vocês todos são. Bando de esquisitões.
            Dante deu uma gargalhada, mas logo se conteve. O que estava acontecendo? Há anos que ele não sentia vontade de sorrir, quem dirá de gargalhar daquele jeito.
- Já que não vão me matar, posso ir?
- Pode, Dante, mas primeiro ouça o que temos a pedir. Precisamos de você. – Falou Rafael.
- Vocês dois sabem muito bem que não posso me juntar a esta causa. E se bem me lembro, eu contei-lhes o motivo.
- Claro que lembramos, criança. E é por isso mesmo que eu digo que você tem de vir conosco. Estamos em uma missão de resgate, muito arriscada. Precisamos salvar um de vocês. O problema, e talvez a solução, é que ele se encontra no Inferno.
- E vocês acham que conseguirão resgatá-lo? – zombou Dante.
- Sozinhos, não. Mas com todos os onze, mais eu e Gabriel, temos grandes chances.
- Hmmmmm.... Mas ainda não entendi o porquê eu toparia entrar nessa.
- Dante, Dante.  Abra sua mente. Iremos ao Inferno. Podemos, finalmente libertar você do que o prende a Lúcifer.
            Dante não conseguiu evitar que uma fagulha de esperança reaparecesse em sua mente, mas logo lembrou de quem teriam de enfrentar e do que sua única tentativa de se opor ao Diabo lhe custou.
- Não me juntarei a vocês. Por acaso, vocês se lembram o que aconteceu da última vez? Inclusive, isso tudo que tenho de fazer é consequência das ações de vocês, as quais eu fui tolo ao aceitar. Mas não cometerei esse erro novamente. Adeus. E crianças, cuidem para não cruzarem meu caminho.
            Então, Dante levantou voo. Mas, não conseguiu apagar totalmente aquela pequena fagulha de esperança. Por isso, decidiu seguir os quatro.

“- Quem sabe .... Que Deus os ajude. Que ele nos ajude” – Pensou Dante.

terça-feira, 7 de maio de 2013

O livro dos Myers


O livro dos Myers
            Podiam-se ouvir os passos acelerados pisando sobre as poças d'água. Susanna e Damon corriam o mais depressa possível.
 - Vamos, Damon. Nessa velocidade, eles vão nos alcançar.
- Irmãzinha, você sabe que eu estou apenas lhe acompanhando. Se eu quisesse, já estaria a anos luz longe daqui. - Susanna deu um sorriso e continuou a correr. - Precisamos chegar a um campo aberto. Aqui por entre esses prédios, estamos perdidos e certamente, mortos. - Falou o pequeno rapaz.
- Com certeza, pirralho. Se eu não estiver enganada, mais uns cinco minutos nessa direção e chegaremos ao parque.
- Ah, moleza então. Quem chegar por último paga a próxima refeição. - Falou o ágil Damon, e saiu correndo á frente da garota.
            Susanna tinha 19 anos e não atendia aos padrões de beleza convencionados pela maioria dos homens. E ela não se importava com isso. Usava roupas pretas na maior parte das vezes e seu cabelo era muito escuro. Tinha os braços cheios de tatuagens e um alargador em sua orelha direita. Era alta, mas não o suficiente para torná-la esquisita. Certamente, era muito bonita, mesmo que fora dos padrões.
            Ela trazia em sua mão direita um martelo de guerra, dado por Gabriel. O engraçado e intrigante era a facilidade que ela tinha para carregá-lo como se seu peso fosse insignificante.
            Seu irmão não se parecia em nada com ela. Damon tinha 15 anos. Era pequeno e magro. Ao contrário de Susanna, seus cabelos eram de um louro quase dourado. Essa diferença dava-se ao fato de Susanna ser adotada e ele, não. Damon tinha como arma uma adaga. Era a arma perfeita, pois com sua agilidade, ele fazia um tremendo estrago quando lutava com os tais demônios.
            Damon usava esse óculos de uma lente só, dado a ele por Gabriel, junto com sua adaga, para que pudesse enxergar os demônios. Ele é um mortal e só soube da existência desse mundo por trás da terra por culpa de sua irmã. Após um longo e entediante discurso de Gabriel sobre como era importante que ninguém mais soubesse sobre tudo, o Anjo concordou em deixar o Damon fazer parte da Guerra. Não porque ele acha-se correto, mas porque Susanna concordou em batalhar somente se o seu irmão pudesse ir junto, já que por culpa disso tudo, os dois perderam seus pais.
            E desde então, Damon e sua irmã vivem por ai tentando dar cabo do máximo de demônios que eles puderem.
- Ali, Damon! Chegamos ao parque.
            Susanna se virou, tirou um cigarro do bolso e o acendeu: - Hora da diversão.
            Eram aproximadamente cem demônios contra somente os dois. A agilidade de Damon talvez fosse o que mantinha os dois vivos. Eles avançaram contra as criaturas, matando uns três ou quatro por segundo. Era incrível como os dois juntos se transformavam em uma máquina de exterminar criaturas infernais. Damon, com sua super agilidade. E Susanna com a força de sua super arma.
            Em menos de trinta segundos não havia mais rastro algum de nenhum demônio. Susanna bateu a cinza do cigarro e disse:
- Essa foi moleza. Acho que batemos um recorde.
- Certamente, a mais fácil de todas. - Respondeu o rapaz.
- Então, vamos adiante que o lugar em que Gabriel pediu para que fossemos encontrá-lo fica a algumas horas daqui. E pelo que ele falou, lá a diversão vai ficar mais intensa.
- Ele falou algo sobre o porquê precisamos ir para lá? - Perguntou Damon.
- Não. Só disse que era importante que fôssemos e que chegássemos a tempo, pois eles precisariam de nós.
- Hum. Estranho. Mas tudo bem, quanto mais desses pra dar fim, mais divertida a viagem.
                Então os dois seguiram, por cerca de duas horas, sem encontrar mais nenhum demônio no caminho.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O livro de Gabriel


"Q uerido Gabriel, durante todos esses anos, eu venho observando calado o domínio de Lúcifer sobre a terra. Tenho sofrido assistindo todas as barbaridades que ele vem impondo aos meus filhos. Quando a guerra estava próxima do seu fim, eu poderia muito bem ter interferido. Mas, como eu já deixei claro, não queria me meter por dois motivos: primeiro, porque quando eu lhes dei vida, também lhes dei o livre arbítrio. Em consequência disso, vi meus filhos pecarem, cometerem crimes imensos, odiar-se, acabarem com a vida uns dos outros. E, durante esses milhões de anos, a cada dia, fui perdendo a fé neles. Não consigo, porém, suportar os ver sendo enganados e mal tratados de tal forma e não poder trazê-los para cá. Por isso, Gabriel, decidi deixar o livre arbítrio um pouco de lado e entrar nessa guerra. Não farei isso, me metendo diretamente, e sim através de você e seus irmãos. Darei uma missão, muito importante para vocês. Desde que Lúcifer dominou o mundo, eu enviei à terra doze crianças. Elas possuem algumas habilidades que os seres humanos não possuem. Assim que completam 18 anos, elas conseguem enxergar os demônios como eles realmente são. Preciso que você viaje até a Terra, especificamente nesse nosso ano de 2013, e encontre duas dessas crianças. Uma chamada Cassie, outra chamada Jeremy. Ambos completarão dezoito anos em alguns dias e precisarão da sua ajuda para orientá-los e colocá-los à parte do papel deles na guerra. Quando fizer isso, junte os dois e siga as instruções presentes no envelope que está ao lado. Mas tenha muito cuidado e cautela. Essa oportunidade e poder que estou oferecendo a você e seus irmãos deve ser usada com responsabilidade, e se assim não for feita, o futuro da humanidade estará pra sempre perdido.
            Haja sempre com seu coração bondoso, meu filho.”

            Ao terminar de ler a carta, Gabriel sentiu um alívio. Por anos, ele esperava por algo do tipo. Assim como Deus, ele não conseguia suportar ver os seres humanos, pelos quais tinha um imenso carinho, serem torturados e enganados da forma com que estavam sendo desde que aquele traidor dominou a Terra. Sorriu, com o sorriso mais sincero que talvez já tenha dado, e seguiu seu destino em direção ao ano de 2013.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O livro de Marcel


Quando abriu os olhos tudo que Marcel pode ver foi escuridão. Nada além de um infinito tom de preto. Sua barriga estava úmida e ele conseguia sentir os pingos de, sabe-se lá o que, continuarem a umedecê-la. Marcel não conseguia se lembrar de como ele foi parar ali e ao tentar se mexer, percebeu que estava preso. Então, ele começou a ficar preocupado e um pouco amedrontado. Por mais que tentasse, seus esforços para tentar se lembrar de algo eram inúteis. Assim, fez a única coisa que ele podia: Gritou por socorro. Berrou por alguém. Nenhuma resposta, apenas ecos de sua voz como resposta. Resolveu voltar a dormir.
                Acordou, depois de sabe-se lá quanto tempo, com uma pedrada que atingiu em cheio sua testa.
- Acorda bela adormecida – falou alguém.
                Marcel sentiu o sangue passar pelos seus cílios do olho esquerdo, pingar na sua bochecha e escorrer pelo pescoço até sumir dentro da sua blusa. Agora, ele conseguia enxergar, mas desejou do fundo do seu coração que não pudesse.
                Marcel deu um berro de pavor ao perceber o que era que estava pingando em sua barriga. Acima dela haviam duas cabeças. Dois demônios. Ele já conhecia esse tipo de criatura há algum tempo, pois a única coisa que ele fazia todos os dias após seus 18 anos era matá-los. Ele perdeu a conta de quantas dessas criaturas já havia “dado cabo”. Porém, essas ali eram diferentes. Elas eram as cabeças de seu pai e sua mãe. Ele sentiu um aperto no peito e seus olhos umedeceram.
                Marcel ficou algum tempo paralisado olhando fixamente para aquelas cabeças, que não paravam de gotejar sangue na sua barriga. Ele não percebeu de imediato que, de cada lado da maca em que estava preso, haviam duas cruzes, de cabeça para baixo, nas quais jaziam os corpos de seus pais pregados. Quando se deu conta, entrou em desespero. Seus pais, que criaram ele durante uns 19 anos aproximadamente, encontravam-se mortos, decapitados, e de forma tão brutal.
                Sentiu a raiva se sobressair sobre a tristeza. E ali mesmo, entre os cadáveres de seus pais, fez uma promessa: Todas as pessoas ou demônios, ou seja qualquer um desgraçado que tenha participado da morte deles [por menor que tenha sido sua participação], pagariam. E teriam a morte mais lenta e dolorosa que ele pudesse dar. Naquele momento, sob o sangue de seus pais, um coração que, um dia fora amável e piedoso, tornou-se uma pedra. Não existia mais nada ali dentro. A única coisa que movimentaria aquele corpo, até o dia em que dessem fim a ele, seria a vingança.
                Aparentemente, o lugar onde Marcel estava preso era um quarto. As paredes tinham tons escuros. Basicamente, preto e cinza, com pinturas por toda a sua extensão, imagens de demônios devorando seres-humanos e outras criaturas. Cenas de tortura, rituais satânicos e coisas do gênero.
- Onde estou – Questionou à criatura.
- Não te interessa, verme – recebeu como resposta. E junto, recebeu mais uma pedrada, que lhe acertou o peito. Ao olhar para a porta, ele pôde ver três vultos. A criatura na sua frente também os viu e, estranhamente, se ajoelhou.
- Quem são eles? – Marcel perguntou.
- Cala a boca, seu verme. Ninguém te deu permissão para falar. E se eu fosse você, ficaria quieto e só falaria quando fosse solicitado.
                Então, os vultos se aproximaram. Agora, ele conseguia ver claramente. Os vultos da esquerda e da direita eram iguais à criatura que o atacou com pedras. Eram demônios. A do meio, porém, parecia um humano. Um muito bonito, diga-se de passagem. Talvez o mais bonito que Marcel já tenha visto. Isso o intrigou. Decidiu seguir o conselho do demônio e ficou quieto.
- Olá, rapaz. Há algum tempo tenho ouvido falar de você. Por acaso, você sabe o tamanho da dor de cabeça que me causou? Acho que não. - Falou o homem.
- Se eu soubesse ao menos quem você é, talvez eu poderia responder essa pergunta – Disse Marcel com um sorriso sarcástico no canto da boca. – E então, sem aviso prévio, foi surpreendido por mais uma pedrada, que dessa vez atingiu em cheio seu órgão genital. Ele nunca havia sentido uma dor tão intensa. Faltou o ar, seu estômago parecia que ia explodir. Teve ânsia de vômito. Tontura. Tudo foi ficando preto. Desmaiou.
                Não se sabe quanto tempo decorreu. Após abrir os, viu que os dois demônios e o homem ainda estavam na sua frente, mas o que jogou as pedras estava morto no chão. Morto mesmo. Sua cabeça fora separada do corpo e sua barriga aberta. Podia-se ver seus órgãos saindo por ela.
- Desculpe a má hospitalidade do meu escravo – Disse o homem.
                Foi então que Marcel ligou os pontos. O homem que se apresentava à sua frente era o diabo em pessoa.
- Onde está a minha foice? - Foi o que lhe veio na cabeça.
- Infelizmente, ficou na sua casa. Ninguém conseguiu pegá-la sem virar um monte de pedaços explodidos. Curiosa aquela arma. Uma pena não conseguir trazê-la pra cá.
                Marcel achou isso bom. Apesar de parecer impossível, ele tinha esperanças de que conseguiria fugir. E assim que conseguisse, resgataria sua arma e iria ao encontro do destino que lhe foi dado: encontrar uma tal de Cassie.
                Ele sabia que não conseguiria vingança aos seus pais sozinho. Precisava de Cassie e dos outros 11 escolhidos.
- Então garoto, vai nos falar sobre os seus outros amigos ou não? - Questionou, com uma voz calma e macia, o homem. Marcel ficou em silêncio. Na verdade ele nem ouviu o Diabo, pois estava pensando em como fugiria daquele lugar, que ele tinha quase certeza, era o Inferno. Foi quando uma voz ecoou em sua mente.
- Marcel, não faça nada precipitado e aguente firme. Estamos indo resgatá-lo. Só tente se manter vivo.
                Ele reconheceu a voz de Rafaela. E se sentiu aliviado (se isso fosse possível na circunstância). Afinal, nem tudo estava perdido.
- Então rapaz, vai me responder ou terá de ser do modo difícil? - Falou novamente o homem.
- Eu não sei do que o senhor está falando. Afinal, onde estou? - Falou Marcel, se fazendo de desentendido e ganhando tempo.
- Rapaz, rapaz. Não teste minha paciência. Estou tentando ser paciente e amigável. Mas isso não dura muito tempo, acredite em mim.
- Como poderei responder a algo que não sei do que se trata?
E então, algo o acertou no rosto, fazendo jorrar mais sangue. À primeira vista, Marcel achou que era um chicote, mas depois percebeu que o que lhe bateu fora a calda do Diabo.
- Última chance rapaz.
Marcel fez silêncio.
- Ok. Se assim deseja. – Então, o Diabo virou as costas, estalou os dedos para seus escravos, e antes de sair disse: - Nos vemos daqui a algumas horas. - E uma dor imensa invadiu o corpo de Marcel. Tudo que ele viu antes de apagar foi a calda vindo em direção ao seu olho esquerdo e então tudo ficou escuro. Ele desmaiou. De novo.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O livro de Jeremy


Acho que faz uns três ou quatro meses que aquela figura angelical me procurou. No começo, tudo pareceu insano. Mas depois fui obrigado a cair na realidade e acreditar nela. Afinal, ou eu estava ficando louco ou os meus olhos estavam enxergando coisas demais.
                Desde os meus 8 anos que eu vivia de orfanato em orfanato. Sabe, nunca fui um bom exemplo de garoto. Nem queria ser. Sempre achei que o mundo era injusto. Que os adultos eram injustos. Que meus pais eram também. Então, nunca durava mais de um mês com as famílias que me adotavam. Quando completei meus 16 anos, decidi fugir e viver por minha conta mesmo. Andei por becos, apanhei, fui esfaqueado. Pra falar a verdade, eu tive é muita sorte de não ter morrido vivendo essa vida. Bom, agora eu sei que não foi bem sorte. Foram eles: os anjos e Deus.
                Ainda fico furioso de lembrar que tudo o que acreditei, que meus pais haviam me abandonado, era mentira. Nem eu sei, na verdade, como eu nasci, se foi tipo aquela história daquele homem chamado Jesus em que a mulher magicamente engravida e o tem. Eu acho que talvez tenha sido isso, e a mulher foi instruída por Deus a me deixar em um orfanato. Sei lá, também não gosto muito de pensar nisso.
                Hoje, estou me mudando para São Paulo. Depois que aquela moça, Gabriela, veio falar comigo, ela meio que estabeleceu uma conexão mental comigo. Ontem, ela me pediu para que logo de manhã, eu me mudasse. Eu aprendi da pior forma que deveria obedecer a ela. Então, aqui estou de malas prontas.
                Acho que, pelas minhas contas, eu já mandei de volta para o inferno mais de 50 daqueles demônios. Eu sei que eles muitas vezes não são pessoas más e são meio que obrigadas a fazerem o que fazem. Mas antes eles do que eu. Minha vida na rua meio que me ajudou a aprender a manusear facas e etc. Uso como arma uma espada. Ganhei de presente da anja. Uma lâmina afiada, tenho de admitir. Acho que sem ela, quem teria ido pro inferno teria sido eu.
                Levo pouca coisa junto comigo. Apenas minha espada e algumas roupas nessa mochila. Quando menos peso, menos estorvo.
Eu meio que sempre fui solitário. Mas, às vezes, sinto falta de uma companhia. Tive um grande amigo, que se foi há alguns meses. Diferente de mim, ele não tinha essa proteção toda que eu tive e acabou sendo morto. Acredito que tenha sido por um desses filhos da puta que andam por ai. Desde então procuro não me apegar a ninguém e viver por mim mesmo. Pra mim mesmo.
- Olá senhor. Posso ver sua passagem?
- Claro, aqui está
- Plataforma 23. O voo está atrasado. Talvez, ele atrase até uma hora. O caminho até São Paulo está com alguma espécie de neblina e os voos foram adiados por um tempo.
- Ok. Tem algum banheiro aqui perto que eu possa usar?
- Seguindo a sua direita, o senhor já vai avistar a placa indicando o caminho.
- Ok. Obrigado e boa noite.
- Boa noite e boa viagem, senhor.
Claro que não poderia ser diferente. Quando é que um voo não sai atrasado?
Uma coisa que eu aprendi facilmente é conviver com esses monstros. Eles são feios demais, fedidos demais e muitas vezes muito maus. Geralmente, eles mexem comigo. Eles procuram os que têm mais medo, ou tristeza. Quando mais energia negativa um ser humano possuí, mais isso atrai a eles. Todos os demônios que eu matei foi, na verdade, por não suportar vê-los torturar essas pobre almas que de nada sabem. E devo admitir, por diversão.
                Gabriela falou que quando eu chegasse em São Paulo, uma garota da mesma idade que eu, estaria me aguardando. Seu nome é Cassie e ela é do mesmo time que eu: órfã, filha de sabe-se lá quem.
                Até onde sei, os pais dela são Demônios. Eles não sabem dela. Porém, fiquei sabendo meio que por cima, que ela tem uma amiga do time dos endiabrados. Como elas podem confiar num deles? Enfim, Gabriela me disse que podia confiar e eu vou confiar. Mas fala sério, essa história de grupinho de demônios anti-capeta não me desceu, não.
                Uma coisa que achei engraçado foi o fato de toda vez que a Gabriela vem falar comigo, ela traz pra nós uma caixa de cerveja. Achei meio que legal esse lado rebelde dos anjos, haha. Segundo ela, eles não poderiam tomar. Mas quem se importa? Passei a gostar mais deles depois disso.
                Depois de esperar por exatas duas horas e cinquenta e dois minutos, meu voo finalmente foi liberado. Bom, daqui ate lá não são tantas horas de viagem. Mas dá pra tirar um cochilo. E nos últimos dias, isso é tudo em que eu venho querendo. Um bom cochilo.
               
                [Como sempre, Jeremy acabou tendo pesadelos. Traumas acumulados de sua infância difícil e das descobertas recentes. Geralmente, seus pesadelos acabavam em morte. Mas sempre, e isso é muito importante, ele acordava antes de morrer. Segundo histórias que ele ouvia quando criança, se você morre dentro de um sonho, você morre fora dele também]

                Quando cheguei ao aeroporto, logo vi a Cassie. Ela estava com aquela plaquinha com meu nome escrito. Fui em direção a ela.
- Olá. Você deve ser Cassie, certo?
- Exatamente. Jeremy?
- Prazer. Desculpe o atraso, mas a culpa não foi minha.
- Sem problemas. Duas horas em pé me deu tempo de preencher esse livrinho de palavras cruzadas. É meio que um hobby.
- Huuum. Nunca vi isso. Mas deve ser interessante.
- Interessante não é, mas é bom pra matar o tempo!
                Pegamos um taxi até sua casa. Chegando lá, encontrei seus pais. Deus, são os demônios mais feios que eu já vi. Mas eles me pareceram bem simpáticos. Após cumprimentá-los e tomarmos um café que, diga-se de passagem, foi um dos melhores que já provei em toda a minha vida, subimos para o quarto dela. Cassie disse aos seus pais que eu era um amigo da escola, que havia se mudado há uns anos e agora estava voltando pra São Paulo e precisava de um lugar para ficar até conseguir me estabelecer por aqui. Eles aceitaram tranquilamente.
                Ao entrar no quarto, demos de cara com Rafaela e Gabriela lá. Elas pediram para fecharmos a porta e Rafaela então falou:
- Temos uma missão para vocês. E acreditem, é uma missão meio difícil. Mas vocês terão nossa ajuda. Acho que hoje, oficialmente, daremos nosso primeiro passo pra retomar a terra.
                Eu e Cassie nos entreolhamos apreensivos. Então, Gabriela falou:
- Precisamos que vocês nos ajudem a resgatar um de vocês.
- Ok. Não parece ser tão difícil. - falei
- O problema é que ele se encontra aprisionado no Inferno. - Falou Rafaela.
                E ai sim, eu percebi que talvez meus dias estivessem contados.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O livro de Cassie


Cassie é uma típica adolescente de 17 anos. Como toda adolescente, até seus 15 anos, Cassie só pensava em ficar bonita, ter o corpo dos sonhos e rapazes. Pouco antes de completar seus 16 anos, porém, Cassie presenciou algo que mudou sua vida para sempre: Ao voltar da escola, ela testemunhou um acidente onde infelizmente as duas pessoas envolvidas acabaram morrendo. Entretanto, o mais intrigante e assustador para ela foi ver uma figura arrepiante e horrenda conduzindo as duas pessoas (ou almas, ela não sabe explicar) para uma espécie de buraco negro próximo ao acidente. Depois desse dia, Cassie jamais foi a mesma. Dificilmente ela saía de seu quarto, sentia medo de tudo. Quanto menos se expusesse ao universo fora de sua casa (ou seu quarto), melhor.
            Após esse dia, Cassie começou a estudar tudo a respeito de demônios, anjos, entidades ou qualquer coisa que pudesse existir de sobrenatural no mundo. Procurava por indícios de qualquer coisa que conseguisse provar que existe muito mais do que os olhos humanos podem enxergar à primeira vista. E é agora, próximo ao seu aniversário de 18 anos, que ela vai acabar descobrindo algo que vai talvez deixe-a mais louca e paranoica do que ela já se tornou.
            Era uma manhã de qualquer dia. Não, não era qualquer dia. Não para Cassie. Era o dia em que ela completaria 18 anos. O dia que ela se tornaria adulta perante a lei. Não que isso importasse pra ela, sendo o seu mundo praticamente dentro de casa com seus livros e suas pesquisas. Contudo, foi quando Cassie desceu para tomar café que tudo mudou. Alguém tocou a campainha. Cassie achou muito estranho, até porque ela já não se lembrava mais da última vez que alguém bateu na porta de sua casa. Seus pais não estavam em casa, pois haviam saído para trabalhar. Ela levantou da sua cadeira e deixou seu café em cima da mesa e foi em direção à porta para atender a quem quer que fosse que estivesse tocando aquela maldita campainha, que fez com que ela tivesse de parar de tomar seu café. Ao abrir a porta, uma figura feminina loura estava lá.
– Olá Cassie. Tudo bem? - Falou aquela mulher perfeitamente linda, perfeita mesmo. Muito perfeita. Se perfeição precisasse de uma definição, era só mostrar essa mulher.
– Tudo sim. Mas quem é a senhora? - Respondeu Cassie.
– Podes me chamar de Rafaela. Ou Rafa, se preferir.
– Hmmm. Ok. Em que posso ajudar, Senhora Rafaela? - Disse Cassie com um tom de ironia em sua voz.
– Posso entrar? Aqui fora não é o lugar certo pra falarmos sobre isso. Existem muitos ouvidos por aí e o assunto que tenho que tratar com você é de extrema importância e sigilo. - Falou a loura perfeita.
– Ok Rafaela, Rafa ou seja quem for. O que a faz pensar que eu deixaria uma estranha que eu nunca vi na vida entrar em minha casa?
– Isso! - Falou a moça - E para o espanto de Cassie, ela retirou um celular do bolso e mostrou um vídeo. De repente, a expressão entediada de Cassie se transformou numa expressão de medo. A estranha mulher acabara de lhe mostrar na tela do celular exatamente a visão que Cassie presenciou naquele dia em que sua vida mudou. Cassie, então, deixou a mulher entrar.
            Cassie ficou aterrorizada. Não só pelo fato da mulher ter em mãos aquela filmagem, mas também por reviver quase que ao vivo aquela experiência novamente.
– Cassie, sei que isso é uma grande loucura, mas você precisa estar preparada pra o que eu vou dizer. Então, vou lhe dar um tempo pra respirar e se acalmar – Falou a bonitona.
– Não. Podes falar já. Estou bem. - respondeu Cassie.
– Ok. Escuta Cassie. Esse mundo aqui já acabou há muito tempo. A luta entre o bem e o mal, que existia há muito tempo acabou e quem ganhou, infelizmente, foi o mal. Muitos anjos e demônios lutaram uns contra os outros durante milhões e milhões de anos, mas no final, quem acabou ganhando foram eles. Deus preferiu não interferir nessa luta por causa do livre-arbítrio que ele havia dado aos seres humanos. Infelizmente, a maioria sempre escolheu o lado do mal, o que acabou trazendo muito mais demônios para a guerra do que os anjos. Deus está disposto, porém, a recuperar a Terra que um dia foi dele e dos humanos. Ele quer pôr um basta nas peças de desilusões que o Diabo vem submetendo às almas das pessoas que aqui ficaram depois do fim da guerra. Não que todos que ficaram sejam maus. Mas assim que a guerra terminou, o Diabo não deixou que Deus levasse as almas das boas pessoas que ficaram aqui. Por isso você está aqui, Cassie! Assim como você, foram enviadas do paraíso muitas almas em segredo para que habitassem a Terra como infiltrados. Foi uma operação há muito tempo planejada, para que as suspeitas sobre isso por parte dos demônios e do Diabo fossem nulas. Vocês são a esperança de todo o Paraíso e das pessoas daqui. Mas, diferente da outra vez, Deus está disposto a entrar nessa batalha contra o mal. Por isso, vocês foram enviados aqui para começar com essa revolução. Por isso é que precisamos de você.
            Cassie não sabia o que dizer. Parecia tudo uma grande piada. Não seria a primeira vez que alguém tentaria pregar uma peça nela, por ser a menina esquisita da escola e da cidade. E nesse momento, isso realmente parecia uma dessas peças. Porém, aquele vídeo… aquele vídeo… não podia ser uma brincadeira de mau gosto. Entretanto, era algo muito fora do normal para que Cassie pudesse absorver assim facilmente. Deus? Diabo? Fim do mundo? Não, realmente era loucura demais pra uma garota de 18 anos acreditar.
– Cassie, eu sei que é muita coisa pra absorver. Por isso, irei embora agora pra deixar que você reflita sobre tudo o que falei. Amanhã eu volto, pra saber se você topa a sua missão ou não.
– Ok, Rafaela. Preciso mesmo desse tempo.
            E da porta da sua casa, Cassie viu aquela figura da perfeição desaparecer por entre a rua. Fechou a porta e voltou a tomar seu café da manhã. Só que dessa vez, com muita coisa na cabeça para pensar.
            Como era seu aniversário, Cassie todo ano se dava de presente, não ir para a escola. Então logo após tomar seu café da manhã, ela decidiu assistir a um pouco de televisão. Primeiro ela colocou num programa de comédia. Ou ela não estava com seu humor muito em alta, ou o programa era ruim demais, pois Cassie não deu nem um sorriso. Em seguida, ela passou pelo canal da CNN. Nesse instante, Cassie deu um pulo do sofá ao ver uma notícia referente a um atentado no Irã. Enquanto um repórter comentava sobre o ocorrido, de fundo ela avistou… Mais daqueles monstros que ela havia visto quando ela tinha seus 15 anos. Ela viu pelo menos quatro daqueles monstros. Eles eram feios. Muito feios. Realmente, feios demais. Assustadores, horripilantes. Cassie se arrepiou toda. Eles estavam rindo, mas era um sorriso maléfico, cheio, mas muito cheio de maldade. No desespero, ela arrancou a televisão da tomada e subiu pro seu quarto para fazer o que de melhor ela sabia: Pesquisar.
            Ela ligou seu notebook e foi direto ao site de pesquisa e procurou por “Guerra entre anjos e demônios”. Durante horas e horas, Cassie ficou lendo sobreo assunto. Pesquisou sobre outros temas relacionados, buscou e buscou, mas não encontrou nada que pudesse ajudá-la. Quando se deu conta, já eram quase dez horas da noite. Seus pais chegariam a qualquer momento. Cassie desligou o notebook e foi pra cama dormir.
            No outro dia, no mesmo horário da manhã anterior, Rafaela tocou a campainha. Cassie abriu a porta para que ela entrasse. Rafaela parecia ainda mais bonita e perfeita hoje. Isso meio que deixava Cassie com um pouco de ciúmes.
– Oi Rafaela, pode entrar, por favor.
– Olá Cassie. Teve bastante tempo pra pensar sobre o assunto?
– Tive sim, apesar de tudo isso ainda parecer uma loucura surreal. Como pode isso tudo existir? Aquele dia, eu achei que tinha imaginado aquelas criaturas e que estava ficando louca. Mas ontem eu as avistei novamente pelo noticiário. Como pode isso? E porque as outras pessoas não os veem?
– Cassie, a partir do momento que você completou seus 18 anos, você pode enxergar qualquer demônio. Eles não sabem que você pode vê-los e é de extrema importância que não percebam isso também. Se algum deles perceber que você pode enxergá-los, será seu fim. E infelizmente, quando sua missão começar, você verá que eles estão por toda parte e em todo canto. Por isso, deve-se ter muita cautela ao conversar. Para o nosso bem, eles são quase surdos. Mas é sempre bom tomar cuidado. A maioria dos demônios passa por pessoas. Os outros humanos quando os veem, enxergam-nos apenas como pessoas normais. Os enviados por Deus para a Terra são os únicos que podem vê-los em sua forma real.
– Hmmmm. Isso é tudo muito louco.
– Cassie, você precisa saber de algo. Para que você não estrague tudo e acabe com sua vida aqui. Sente-se.
– Ok. Vou buscar um café primeiro. Aceita?
– Oh sim. Café é uma das minhas bebidas favoritas aqui da Terra, depois da cerveja.
– O QUE? Você pode beber cerveja?
– Poder eu não poderia. Mas até nós anjos podemos ser rebeldes de vez em quando.
– Você é um anjo? Meu Deus, eu devo estar ficando louca.
– Hahaha. Sou sim, Cassie. Muitos me conhecem pelo nome de Rafael.
– É realmente fiquei louca. Rafael, o anjo, é na verdade uma anja.
– Não é assim, Cassie. Posso ser qualquer forma. Mas essa não é minha real forma.
– Aqui esta seu café, Rafael que é ela.
– Obrigada! Então Cassie, preste bem atenção no que eu vou falar. Você, como todos os outros escolhidos por Deus, não nasceram da forma convencional. Foram simplesmente deixados na porta de orfanatos e de lá adotados por famílias. Aí vem o grande problema. As pessoas que adotaram você…
– Como é? Você está dizendo que meus pais, na verdade, não são meus pais?
– Isso mesmo Cassie! Mas isso não é o problema. O problema é que seus pais são demônios.
– COMO? MEU DEUS. COMO ASSIM? Eles não podem ser demônios. Eles sempre foram bons comigo. Nunca nem sequer encostaram as mãos em mim. Como podem ser demônios?
– Cassie, existem demônios que vivem aqui como humanos normais. Têm família, amigos, animais e etc. Porém, o que você acha que eles fazem durante o que eles chamam de trabalho?
– Meus pais são jornalistas.
– Não, não, não! Eles passam o dia torturando pessoas, Cassie. Às vezes, matando. É o que os satisfaz. É o que eles gostam de fazer. Porém, por incrível que possa parecer, eles gostam de você! Você é como se fosse parte da família deles, por isso que você é tratada assim gentilmente. Se eles souberem que você pode vê-los, porém, com certeza será seu fim, Cassie. Eles se sentirão mal por ter de acabar com sua vida, mas não hesitarão em matar você e adotarão uma nova criança. Alguns matam seus filhos por apenas tê-los irritado.
            Por um momento, Cassie ficou calada até que lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Ela disse pra Rafaela que entendeu o recado e que ela não demonstraria nenhuma reação ao encontrar seus pais e pediu pra ela fosse embora, pois precisava ficar a sós e descansar um pouco.
            Cassie dormiu até pouco antes dos seus pais chegarem. Ela queria ter certeza de que Rafaela dizia a verdade. No fundo, ela sabia que era verdade, mas ela queria acreditar que Rafaela estivesse errada a respeito de seus pais.
            Primeiro, o barulho da porta se abrindo. Depois, os risos de seus pais. Cassie ficou quieta em seu quarto, apenas ouvindo. Não ouviu nada demais, apenas conversas sobre como foi o dia, o trânsito, o tempo. Então, ela decidiu descer pra dizer boa noite aos seus pais. Cassie desceu as escadas até onde conseguisse vê-los, mas que eles não conseguissem vê-la. E para o seu total desapontamento, o que ela viu foi a coisa mais horripilante de toda sua vida. Sua mãe tinha três chifres, dentes pontudos que saltavam pra fora de sua boca. Seus olhos eram de um vermelho infernal e sua pele era toda enrugada e com uma aparência de podre. Seu pai era tão feio quanto a mãe. Tinha um único chifre na testa, olhos brancos como o de um morto-vivo, sua boca não tinha lábios, o que acabava mostrando seus dentes amarelados e podres. Cassie subiu as escadas devagar e foi para o seu quarto. Ela não iria conseguir fingir que tudo estava normal na presença dos seus pais-demônios. Não hoje. Deitou-se na sua cama e chorou até dormir.
            Cassie levantou para ir tomar café. Como de costume, ela sempre fazia isso sozinha, já que seus pais saíam muito cedo para o trabalho. Sentou-se na mesa e colocou o café no copo. Tirou duas fatias de pão, queijo, presunto, tomate e algumas outras coisas e fez um sanduíche. Ao se virar para ir à sala, para  assistir TV enquanto comia, ela deixou tudo cair no chão. Na porta, estava seu pai e do lado sua mãe em suas formas horrendas. Cassie tentou disfarçar, dizendo que levara um susto, pois não esperava encontrar eles em casa. Seu rosto, porém, não dizia isso. Seu rosto continuava expressando horror, medo, espanto. E infelizmente, eles perceberam.
– O que foi, filhinha? Há algo de errado? Por que essa cara? - Disse seu pai-demônio;
– Na-na-nada não, pai. E-e-e-eu só-ó …. - Cassie não conseguia falar.
– Oh filinha, vem aqui da um abraço na mamãe, vem. - Falou sua diabólica e medonha mãe.
            Nessa hora, Cassie começou a correr. Tentou subir as escadas para ir para seu quarto, porém algo segurou seus pés. Ela sentiu uma dor enorme e ao verificar, haviam seis garras cravadas em sua panturrilha. Filetes de sangue começaram a escorrer por sua perna. Ao olhar para baixo, viu seu pai com a cara ainda mais feia, de raiva, e babando como se estivesse louco. Cassie começou a ser puxada, e pressentiu o que aconteceria em seguida: seria devorada pelo seu próprio pai.
– Querida, venha aqui. Eu fico com a parte da cintura para baixo, e o resto pra cima é todo seu. - Falou o demônio.
– Oh querido, como eu amo você. Você sabe que eu amo humanos da cintura pra cima. Sabe sim. Obrigada. - Respondeu a mãe.
            O demônio começou a enfiar os pés de Cassie na boca, triturando seus ossos e pele. Ela via seu sangue jorrar das pernas, seus ossos saltarem pra fora. Os nervos jogados ao nada. Porém, não conseguia berrar. Não conseguia pedir socorro. Então, sua mãe apareceu em cima dela e começou a fazer o mesmo, só que com os braços de Cassie. Ela estava sendo devorada viva, e não conseguia se mover, nem falar nada. Ela sentia a dor. A dor de ter sua carne rasgada, seus ossos esmagados, seus nervos despedaçados. Sentia o sangue jorrar pelo seu corpo. E via o rosto de seus pais, ensanguentados, babados, com aqueles dentes enormes cheios de pele e sangue. A dor era enorme e agora ela começava a perder os sentidos. Isso era bom, pois a dor estava diminuindo. E então, só viu escuridão diante dos olhos.
            Cassie acordou berrando, chutando tudo, pulando. Ficou fazendo isso por, no mínimo, um minuto até se dar conta de que aquilo tudo foi um sonho. Mas algo dentro dela ainda sentia o terror do pesadelo todo. Sentia mesmo.
            Cassie ficou no seu quarto até ter certeza que seus pais não estariam lá para fazer seu pesadelo se tornar realidade.
            Desceu as escadas cautelosamente. Viu que a barra estava realmente limpa. Tomou seu café conforme havia feito no seu pesadelo. Ao ligar a televisão, ficou espantada. Em todo programa que ela colocava, avistava, no mínimo, um demônio. “Deus do céu, como eles são medonhos” - Pensou. E riu ao lembrar que supostamente fora Ele que havia abandonado todos na terra e deixado ela para o Diabo e seus anjos da morte. Ao pensar nisso, Cassie sentiu seu sangue ferver.
“DING DONG” - Tocou a campainha.
Cassie não esperava por isso e deu um tremendo salto no sofá.
“DING DONG” - Tocou de novo.
Cassie foi em direção à janela e espiou através da cortina para ver quem era.
– Cassie, é a Marta. Preciso falar com você urgente.
            Cassie deu um pulo pra trás de espanto e abafou um berro que não saiu por pouco. Marta, sua melhor amiga, sua única amiga, era um deles. Apesar do horror em descobrir isso, ela não deixou de se sentir um sorriso surgindo em seu rosto e uma ponta de felicidade . Marta era como se fosse a garota mais bonita e gostosa do mundo: Ruiva, magra, peitos perfeitos, empinados, durinhos. Há quem diga que era silicone, mas Cassie sabia que não era, pois já havia tocado neles e averiguado. Mas agora, aquela figura de beleza extrema estava na porta da sua casa. E acreditem, os pais de Cassie eram a Miss e Mr. Universo da beleza perto de Marta.
            Então uma tristeza se sobrepôs àquela felicidade. Marta era realmente muito legal com ela. Sempre tinha os melhores conselhos, as melhores conversas, as melhores dicas. E para Cassie, não restou mais ninguém com quem ela pudesse contar. Primeiro, seus pais. Agora, sua melhor amiga. Ela pensou que eles não podiam ser maus como Rafaela tinha lhe dito. Afinal, seus pais sempre deram muito amor a ela. Muito mesmo. E Marta? Ela era a pessoa mais bondosa e amorosa que se encaixava ao significado da palavra bondade. Sempre estava relacionada a tudo que tivesse relação com ajudar o próximo. Como poderia eles, os três, serem capazes de cometerem atos tão cruéis quanto os que o Anjo contou? Cassie achava que pudesse haver exceções. Uma hora ou outra teria de lidar com seus pais, então porque não treinar com Marta? Foi em direção à porta e a destrancou. Fez um cara de quem não quer nada com nada e a abriu.
– Oi, Marta. Pra quê todo esse desespero?
– Cassie, vamos para dentro.
As duas entraram. Agora Cassie estava ficando mais preocupada e apavorada do que estivera antes.
– Eu sei que você sabe quem e o que eu sou.
– Como assim, Marta? Quem você é? Claro que sei. Minha melhor amiga, poxa.
– Não se faça de desentendida. Você sabe sobre o fim do mundo, o Diabo, os Demônios.
            Então Cassie não conseguiu mais manter o fingimento e ficou com medo. Lembrou-se do seu pesadelo. Estava prestes a sair correndo pelas portas dos fundos quando Marta finalmente falou:
– Não se preocupe. Nem todos nós somos que nem a maioria. Inclusive, existe um grupo de nós que luta contra todo esse mal que é feito aqui na terra. Nem todos os que se tornaram demônios se tornaram porque foram maus, entenda. E esses são os que fazem parte do nosso grupo. Eu faço parte dele. Somos chamados de o exército dos mortos-vivos. É meio engraçado o nome, porém é o que somos. Somos mortos, mas estamos vivos. Escolhemos esse nome pra ser engraçado então pode tirar esse sorrisinho do rosto.
            Cassie estava rindo agora. Rindo de gargalhar. Que porra é essa? Exército dos mortos-vivos? “Isso por acaso é algum daqueles sonhos dentro de outro sonho dentro de outro sonho que daqui a pouco vou acordar?” - Pensou. Por fim, parou de rir e falou:
– Meu Deus, se vocês forem tão bons em combater o mau quanto em escolher nomes de grupos, estamos perdidos. - E voltou a rir.
– É, engraçadinha. Mas deixa a parte da graça pra lá porque o problema é grande mesmo. Apesar de muitas pessoas boas virarem demônios, nem todas se juntam a nós. Muitas delas, inclusive, ganha privilégios do Diabo para que façam seus jogos de tortura em troca deles. E por isso, nosso número é muito inferior ao resto dos demônios.
– Huuummm. Vendo por esse ponto de vista, até é aceitável a decisão de Deus. - Cassie deixou escapar.
– Não fale isso. Muitos de nós não merecemos isso que acontece aqui. Você ainda não viu nada. Quando você sair pela rua e ver realmente o que eles fazem com os outros, aí sim você vai perceber que nunca deveria ter dito isso.
– Ok, desculpa. Foi meio desnecessário mesmo esse comentário. Agora me diga, Marta, como você soube que eu sabia da existência de vocês?
– Cassie, depois de muito tempo de amizade entre nós que eu pude ter certeza de que eu podia confiar em você, eu usei uma habilidade que todos os demônios têm e só podem usar uma única vez – a não ser que o Diabo nos dê novamente – de poder se conectar mentalmente com alguém. Geralmente eles usam com seus parceiros – quase como se fossem marido e mulher. Porém, eu usei em você. Isso foi um pouco antes de você ter presenciado aquela cena do acidente. A partir daquele dia, eu meio que fiquei pensativa a respeito de você, mas não dei muita atenção. Porém, depois da visita do anjo – e eu ouvi e vi tudo – eu pude saber sobre seu dom – e graças a Deus – em saber que nem tudo está perdido e que temos Deus novamente do nosso lado. Assim que presenciei seu pesadelo e seu nível de medo, achei que era hora de vir aqui e conversar com você para te mostrar que você não está sozinha. Cassie, acredite no que Rafaela disse: Não pode-se confiar em nenhum demônio. Nenhum mesmo. Levamos anos e anos para saber se podemos aceitar algum em nosso grupo. Por isso, em hipótese alguma, você poderá falar algo para seus pais. Só depois de termos certeza se eles estão do lado do bem ou do mau, que então poderemos trazê-los ou não para nosso lado. Me prometa que fará isso.
– Mas...
– Me prometa, Cassie. Por favor. Pela nossa amizade, pelo bem da terra e do mundo em que vivemos. Me prometa.
– Ok. Eu prometo me esforçar ao máximo.
– Beleza. Vou aceitar isso. Agora preciso ir. Tenho algumas atividades sociais para prestar às pobres almas atormentadas por essas criaturas demoníacas. Se precisar de algo, saiba que estou aqui. Beijo.
Marta deu um beijo na bochecha de Cassie. Ao sair pela porta se virou e disse:
– Ah, e eu também pude sentir sua felicidade ao me ver na forma demoníaca. - Se virou e saiu.
            Cassie deu novamente uma gargalhada estridente, porém agora se sentia mais aliviada em saber que não estava mais sozinha. Claro que ainda estava triste pelos seus pais, mas pelo menos agora ela tinha sua melhor amiga como companheira. Se sentou à mesa e terminou seu café.
            Depois disso, Cassie apenas se vestiu, pegou sua mochila e saiu de casa. Precisava de um lugar tranquilo pra refletir e pensar. Foi ao parque próximo de sua casa, deitou na grama e ficou olhando para o céu nublado e cinza. - Meu Deus, que loucura. - Pensou.  E riu, porque Deus tinha permitido tudo isso. Sentiu raiva dele. Por que diabos ele escolheria esse tal de livre arbítrio fodido ao invés de ajudar seus filhos? Sua criação? Ela ficou com essa raiva em seu peito por alguns minutos até que desabou a chorar. Agora, ela havia entendido o recado de Rafael. Se ela demonstrasse aos seus pais qualquer pista que pudesse revelar que ela sabia da existência dos demônios, seria o fim. O fim dela, o fim da salvação dos humanos.
            Depois que as lágrimas cessaram, ela pegou suas coisas e voltou para casa. Agora mais calma, decidiu que precisaria enfrentar seus pais. Não só eles, como muitos outros iguais ou piores. Chegou em casa, preparou um sanduiche e um copo de café e sentou em frente à televisão. Decidiu que ficaria lá até seus pais chegarem. De hoje, não passaria, e ela teria de ser forte e saber se controlar.
            Eram quase dez horas da noite quando seus pais chegaram em casa. Ela acabou adormecendo na sala e tudo ocorreu fora do planejado. Seu pai foi em sua direção e carinhosamente lhe acordou. Ao abrir os olhos, Cassie deu um pulo e um berro tão alto que até ela mesma se assustou com sua reação.
– O que houve, filha? Pesadelos? - Perguntou seu pai.
– Mais ou menos, pai. Algo do tipo – respondeu.

Prólogo

 Muitas pessoas esperam pelo fim do mundo. O dia em que o Deus supremo, criador do Universo - e tudo de desconhecido que o habita - aparecerá e conduzira os bons, não pecadores, seguidores do seu suposto livro da salvação, chamado Bíblia, ao paraíso, que seria o lugar onde as pessoas poderão passar a eternidade em paz e harmonia com todos os outros seres vivos. E que aqueles que na Terra ficarem serão conduzidos ao Inferno onde eternamente serão submetidos a torturas. O que muitos nunca se deram conta, porém, é de que o mundo já acabou há muitos e muitos anos e que o Inferno é aqui na Terra, lugar que o Diabo, senhor supremo do inferno, escolheu pra torturar as almas das pessoas.