Cassie
é uma típica adolescente de 17 anos. Como toda adolescente, até seus 15 anos,
Cassie só pensava em ficar bonita, ter o corpo dos sonhos e rapazes. Pouco
antes de completar seus 16 anos, porém, Cassie presenciou algo que mudou sua vida
para sempre: Ao voltar da escola, ela testemunhou um acidente onde infelizmente
as duas pessoas envolvidas acabaram morrendo. Entretanto, o mais intrigante e
assustador para ela foi ver uma figura arrepiante e horrenda conduzindo as duas
pessoas (ou almas, ela não sabe explicar) para uma espécie de buraco negro
próximo ao acidente. Depois desse dia, Cassie jamais foi a mesma. Dificilmente
ela saía de seu quarto, sentia medo de tudo. Quanto menos se expusesse ao
universo fora de sua casa (ou seu quarto), melhor.
Após esse dia, Cassie começou a
estudar tudo a respeito de demônios, anjos, entidades ou qualquer coisa que pudesse
existir de sobrenatural no mundo. Procurava por indícios de qualquer coisa que conseguisse
provar que existe muito mais do que os olhos humanos podem enxergar à primeira
vista. E é agora, próximo ao seu aniversário de 18 anos, que ela vai acabar
descobrindo algo que vai talvez deixe-a mais louca e paranoica do que ela já se
tornou.
Era uma manhã de qualquer dia. Não,
não era qualquer dia. Não para Cassie. Era o dia em que ela completaria 18
anos. O dia que ela se tornaria adulta perante a lei. Não que isso importasse
pra ela, sendo o seu mundo praticamente dentro de casa com seus livros e suas
pesquisas. Contudo, foi quando Cassie desceu para tomar café que tudo mudou.
Alguém tocou a campainha. Cassie achou muito estranho, até porque ela já não se
lembrava mais da última vez que alguém bateu na porta de sua casa. Seus pais
não estavam em casa, pois haviam saído para trabalhar. Ela levantou da sua
cadeira e deixou seu café em cima da mesa e foi em direção à porta para atender
a quem quer que fosse que estivesse tocando aquela maldita campainha, que fez
com que ela tivesse de parar de tomar seu café. Ao abrir a porta, uma figura
feminina loura estava lá.
–
Olá Cassie. Tudo bem? - Falou aquela mulher perfeitamente linda, perfeita
mesmo. Muito perfeita. Se perfeição precisasse de uma definição, era só mostrar
essa mulher.
–
Tudo sim. Mas quem é a senhora? - Respondeu Cassie.
–
Podes me chamar de Rafaela. Ou Rafa, se preferir.
–
Hmmm. Ok. Em que posso ajudar, Senhora Rafaela? - Disse Cassie com um tom de
ironia em sua voz.
–
Posso entrar? Aqui fora não é o lugar certo pra falarmos sobre isso. Existem
muitos ouvidos por aí e o assunto que tenho que tratar com você é de extrema
importância e sigilo. - Falou a loura perfeita.
–
Ok Rafaela, Rafa ou seja quem for. O que a faz pensar que eu deixaria uma
estranha que eu nunca vi na vida entrar em minha casa?
–
Isso! - Falou a moça - E para o espanto de Cassie, ela retirou um celular do
bolso e mostrou um vídeo. De repente, a expressão entediada de Cassie se
transformou numa expressão de medo. A estranha mulher acabara de lhe mostrar na
tela do celular exatamente a visão que Cassie presenciou naquele dia em que sua
vida mudou. Cassie, então, deixou a mulher entrar.
Cassie ficou aterrorizada. Não só
pelo fato da mulher ter em mãos aquela filmagem, mas também por reviver quase
que ao vivo aquela experiência novamente.
–
Cassie, sei que isso é uma grande loucura, mas você precisa estar preparada pra
o que eu vou dizer. Então, vou lhe dar um tempo pra respirar e se acalmar –
Falou a bonitona.
–
Não. Podes falar já. Estou bem. - respondeu Cassie.
–
Ok. Escuta Cassie. Esse mundo aqui já acabou há muito tempo. A luta entre o bem
e o mal, que existia há muito tempo acabou e quem ganhou, infelizmente, foi o
mal. Muitos anjos e demônios lutaram uns contra os outros durante milhões e
milhões de anos, mas no final, quem acabou ganhando foram eles. Deus preferiu
não interferir nessa luta por causa do livre-arbítrio que ele havia dado aos
seres humanos. Infelizmente, a maioria sempre escolheu o lado do mal, o que
acabou trazendo muito mais demônios para a guerra do que os anjos. Deus está
disposto, porém, a recuperar a Terra que um dia foi dele e dos humanos. Ele
quer pôr um basta nas peças de desilusões que o Diabo vem submetendo às almas
das pessoas que aqui ficaram depois do fim da guerra. Não que todos que ficaram
sejam maus. Mas assim que a guerra terminou, o Diabo não deixou que Deus levasse
as almas das boas pessoas que ficaram aqui. Por isso você está aqui, Cassie!
Assim como você, foram enviadas do paraíso muitas almas em segredo para que
habitassem a Terra como infiltrados. Foi uma operação há muito tempo planejada,
para que as suspeitas sobre isso por parte dos demônios e do Diabo fossem
nulas. Vocês são a esperança de todo o Paraíso e das pessoas daqui. Mas,
diferente da outra vez, Deus está disposto a entrar nessa batalha contra o mal.
Por isso, vocês foram enviados aqui para começar com essa revolução. Por isso é
que precisamos de você.
Cassie não sabia o que dizer.
Parecia tudo uma grande piada. Não seria a primeira vez que alguém tentaria
pregar uma peça nela, por ser a menina esquisita da escola e da cidade. E nesse
momento, isso realmente parecia uma dessas peças. Porém, aquele vídeo… aquele
vídeo… não podia ser uma brincadeira de mau gosto. Entretanto, era algo muito
fora do normal para que Cassie pudesse absorver assim facilmente. Deus? Diabo?
Fim do mundo? Não, realmente era loucura demais pra uma garota de 18 anos
acreditar.
–
Cassie, eu sei que é muita coisa pra absorver. Por isso, irei embora agora pra
deixar que você reflita sobre tudo o que falei. Amanhã eu volto, pra saber se
você topa a sua missão ou não.
–
Ok, Rafaela. Preciso mesmo desse tempo.
E da porta da sua casa, Cassie viu
aquela figura da perfeição desaparecer por entre a rua. Fechou a porta e voltou
a tomar seu café da manhã. Só que dessa vez, com muita coisa na cabeça para pensar.
Como era seu aniversário, Cassie
todo ano se dava de presente, não ir para a escola. Então logo após tomar seu
café da manhã, ela decidiu assistir a um pouco de televisão. Primeiro ela
colocou num programa de comédia. Ou ela não estava com seu humor muito em alta,
ou o programa era ruim demais, pois Cassie não deu nem um sorriso. Em seguida,
ela passou pelo canal da CNN. Nesse instante, Cassie deu um pulo do sofá ao ver
uma notícia referente a um atentado no Irã. Enquanto um repórter comentava
sobre o ocorrido, de fundo ela avistou… Mais daqueles monstros que ela havia
visto quando ela tinha seus 15 anos. Ela viu pelo menos quatro daqueles
monstros. Eles eram feios. Muito feios. Realmente, feios demais. Assustadores,
horripilantes. Cassie se arrepiou toda. Eles estavam rindo, mas era um sorriso
maléfico, cheio, mas muito cheio de maldade. No desespero, ela arrancou a
televisão da tomada e subiu pro seu quarto para fazer o que de melhor ela
sabia: Pesquisar.
Ela ligou seu notebook e foi direto
ao site de pesquisa e procurou por “Guerra entre anjos e demônios”. Durante
horas e horas, Cassie ficou lendo sobreo assunto. Pesquisou sobre outros temas
relacionados, buscou e buscou, mas não encontrou nada que pudesse ajudá-la.
Quando se deu conta, já eram quase dez horas da noite. Seus pais chegariam a
qualquer momento. Cassie desligou o notebook e foi pra cama dormir.
No outro dia, no mesmo horário da manhã
anterior, Rafaela tocou a campainha. Cassie abriu a porta para que ela
entrasse. Rafaela parecia ainda mais bonita e perfeita hoje. Isso meio que
deixava Cassie com um pouco de ciúmes.
–
Oi Rafaela, pode entrar, por favor.
–
Olá Cassie. Teve bastante tempo pra pensar sobre o assunto?
–
Tive sim, apesar de tudo isso ainda parecer uma loucura surreal. Como pode isso
tudo existir? Aquele dia, eu achei que tinha imaginado aquelas criaturas e que
estava ficando louca. Mas ontem eu as avistei novamente pelo noticiário. Como
pode isso? E porque as outras pessoas não os veem?
–
Cassie, a partir do momento que você completou seus 18 anos, você pode enxergar
qualquer demônio. Eles não sabem que você pode vê-los e é de extrema
importância que não percebam isso também. Se algum deles perceber que você pode
enxergá-los, será seu fim. E infelizmente, quando sua missão começar, você verá
que eles estão por toda parte e em todo canto. Por isso, deve-se ter muita
cautela ao conversar. Para o nosso bem, eles são quase surdos. Mas é sempre bom
tomar cuidado. A maioria dos demônios passa por pessoas. Os outros humanos
quando os veem, enxergam-nos apenas como pessoas normais. Os enviados por Deus
para a Terra são os únicos que podem vê-los em sua forma real.
–
Hmmmm. Isso é tudo muito louco.
–
Cassie, você precisa saber de algo. Para que você não estrague tudo e acabe com
sua vida aqui. Sente-se.
–
Ok. Vou buscar um café primeiro. Aceita?
–
Oh sim. Café é uma das minhas bebidas favoritas aqui da Terra, depois da cerveja.
–
O QUE? Você pode beber cerveja?
–
Poder eu não poderia. Mas até nós anjos podemos ser rebeldes de vez em quando.
–
Você é um anjo? Meu Deus, eu devo estar ficando louca.
–
Hahaha. Sou sim, Cassie. Muitos me conhecem pelo nome de Rafael.
–
É realmente fiquei louca. Rafael, o anjo, é na verdade uma anja.
–
Não é assim, Cassie. Posso ser qualquer forma. Mas essa não é minha real forma.
–
Aqui esta seu café, Rafael que é ela.
–
Obrigada! Então Cassie, preste bem atenção no que eu vou falar. Você, como
todos os outros escolhidos por Deus, não nasceram da forma convencional. Foram
simplesmente deixados na porta de orfanatos e de lá adotados por famílias. Aí
vem o grande problema. As pessoas que adotaram você…
–
Como é? Você está dizendo que meus pais, na verdade, não são meus pais?
–
Isso mesmo Cassie! Mas isso não é o problema. O problema é que seus pais são
demônios.
–
COMO? MEU DEUS. COMO ASSIM? Eles não podem ser demônios. Eles sempre foram bons
comigo. Nunca nem sequer encostaram as mãos em mim. Como podem ser demônios?
–
Cassie, existem demônios que vivem aqui como humanos normais. Têm família,
amigos, animais e etc. Porém, o que você acha que eles fazem durante o que eles
chamam de trabalho?
–
Meus pais são jornalistas.
–
Não, não, não! Eles passam o dia torturando pessoas, Cassie. Às vezes, matando.
É o que os satisfaz. É o que eles gostam de fazer. Porém, por incrível que possa
parecer, eles gostam de você! Você é como se fosse parte da família deles, por
isso que você é tratada assim gentilmente. Se eles souberem que você pode vê-los,
porém, com certeza será seu fim, Cassie. Eles se sentirão mal por ter de acabar
com sua vida, mas não hesitarão em matar você e adotarão uma nova criança.
Alguns matam seus filhos por apenas tê-los irritado.
Por um momento, Cassie ficou calada
até que lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Ela disse pra Rafaela que
entendeu o recado e que ela não demonstraria nenhuma reação ao encontrar seus
pais e pediu pra ela fosse embora, pois precisava ficar a sós e descansar um
pouco.
Cassie dormiu até pouco antes dos
seus pais chegarem. Ela queria ter certeza de que Rafaela dizia a verdade. No
fundo, ela sabia que era verdade, mas ela queria acreditar que Rafaela
estivesse errada a respeito de seus pais.
Primeiro, o barulho da porta se
abrindo. Depois, os risos de seus pais. Cassie ficou quieta em seu quarto,
apenas ouvindo. Não ouviu nada demais, apenas conversas sobre como foi o dia, o
trânsito, o tempo. Então, ela decidiu descer pra dizer boa noite aos seus pais.
Cassie desceu as escadas até onde conseguisse vê-los, mas que eles não
conseguissem vê-la. E para o seu total desapontamento, o que ela viu foi a
coisa mais horripilante de toda sua vida. Sua mãe tinha três chifres, dentes
pontudos que saltavam pra fora de sua boca. Seus olhos eram de um vermelho
infernal e sua pele era toda enrugada e com uma aparência de podre. Seu pai era
tão feio quanto a mãe. Tinha um único chifre na testa, olhos brancos como o de
um morto-vivo, sua boca não tinha lábios, o que acabava mostrando seus dentes
amarelados e podres. Cassie subiu as escadas devagar e foi para o seu quarto.
Ela não iria conseguir fingir que tudo estava normal na presença dos seus
pais-demônios. Não hoje. Deitou-se na sua cama e chorou até dormir.
Cassie levantou para ir tomar café.
Como de costume, ela sempre fazia isso sozinha, já que seus pais saíam muito
cedo para o trabalho. Sentou-se na mesa e colocou o café no copo. Tirou duas
fatias de pão, queijo, presunto, tomate e algumas outras coisas e fez um
sanduíche. Ao se virar para ir à sala, para assistir TV enquanto comia, ela deixou tudo
cair no chão. Na porta, estava seu pai e do lado sua mãe em suas formas
horrendas. Cassie tentou disfarçar, dizendo que levara um susto, pois não
esperava encontrar eles em casa. Seu rosto, porém, não dizia isso. Seu rosto
continuava expressando horror, medo, espanto. E infelizmente, eles perceberam.
–
O que foi, filhinha? Há algo de errado? Por que essa cara? - Disse seu
pai-demônio;
–
Na-na-nada não, pai. E-e-e-eu só-ó …. - Cassie não conseguia falar.
–
Oh filinha, vem aqui da um abraço na mamãe, vem. - Falou sua diabólica e
medonha mãe.
Nessa hora, Cassie começou a correr.
Tentou subir as escadas para ir para seu quarto, porém algo segurou seus pés.
Ela sentiu uma dor enorme e ao verificar, haviam seis garras cravadas em sua
panturrilha. Filetes de sangue começaram a escorrer por sua perna. Ao olhar
para baixo, viu seu pai com a cara ainda mais feia, de raiva, e babando como se
estivesse louco. Cassie começou a ser puxada, e pressentiu o que aconteceria em
seguida: seria devorada pelo seu próprio pai.
–
Querida, venha aqui. Eu fico com a parte da cintura para baixo, e o resto pra
cima é todo seu. - Falou o demônio.
–
Oh querido, como eu amo você. Você sabe que eu amo humanos da cintura pra cima.
Sabe sim. Obrigada. - Respondeu a mãe.
O demônio começou a enfiar os pés de
Cassie na boca, triturando seus ossos e pele. Ela via seu sangue jorrar das
pernas, seus ossos saltarem pra fora. Os nervos jogados ao nada. Porém, não
conseguia berrar. Não conseguia pedir socorro. Então, sua mãe apareceu em cima
dela e começou a fazer o mesmo, só que com os braços de Cassie. Ela estava
sendo devorada viva, e não conseguia se mover, nem falar nada. Ela sentia a
dor. A dor de ter sua carne rasgada, seus ossos esmagados, seus nervos
despedaçados. Sentia o sangue jorrar pelo seu corpo. E via o rosto de seus
pais, ensanguentados, babados, com aqueles dentes enormes cheios de pele e
sangue. A dor era enorme e agora ela começava a perder os sentidos. Isso era
bom, pois a dor estava diminuindo. E então, só viu escuridão diante dos olhos.
Cassie acordou berrando, chutando
tudo, pulando. Ficou fazendo isso por, no mínimo, um minuto até se dar conta de
que aquilo tudo foi um sonho. Mas algo dentro dela ainda sentia o terror do
pesadelo todo. Sentia mesmo.
Cassie ficou no seu quarto até ter
certeza que seus pais não estariam lá para fazer seu pesadelo se tornar
realidade.
Desceu as escadas cautelosamente.
Viu que a barra estava realmente limpa. Tomou seu café conforme havia feito no
seu pesadelo. Ao ligar a televisão, ficou espantada. Em todo programa que ela
colocava, avistava, no mínimo, um demônio. “Deus do céu, como eles são
medonhos” - Pensou. E riu ao lembrar que supostamente fora Ele que havia
abandonado todos na terra e deixado ela para o Diabo e seus anjos da morte. Ao
pensar nisso, Cassie sentiu seu sangue ferver.
“DING
DONG” - Tocou a campainha.
Cassie
não esperava por isso e deu um tremendo salto no sofá.
“DING
DONG” - Tocou de novo.
Cassie
foi em direção à janela e espiou através da cortina para ver quem era.
–
Cassie, é a Marta. Preciso falar com você urgente.
Cassie deu um pulo pra trás de
espanto e abafou um berro que não saiu por pouco. Marta, sua melhor amiga, sua
única amiga, era um deles. Apesar do horror em descobrir isso, ela não deixou
de se sentir um sorriso surgindo em seu rosto e uma ponta de felicidade . Marta
era como se fosse a garota mais bonita e gostosa do mundo: Ruiva, magra, peitos
perfeitos, empinados, durinhos. Há quem diga que era silicone, mas Cassie sabia
que não era, pois já havia tocado neles e averiguado. Mas agora, aquela figura
de beleza extrema estava na porta da sua casa. E acreditem, os pais de Cassie
eram a Miss e Mr. Universo da beleza perto de Marta.
Então uma tristeza se sobrepôs àquela
felicidade. Marta era realmente muito legal com ela. Sempre tinha os melhores
conselhos, as melhores conversas, as melhores dicas. E para Cassie, não restou
mais ninguém com quem ela pudesse contar. Primeiro, seus pais. Agora, sua
melhor amiga. Ela pensou que eles não podiam ser maus como Rafaela tinha lhe
dito. Afinal, seus pais sempre deram muito amor a ela. Muito mesmo. E Marta?
Ela era a pessoa mais bondosa e amorosa que se encaixava ao significado da
palavra bondade. Sempre estava relacionada a tudo que tivesse relação com
ajudar o próximo. Como poderia eles, os três, serem capazes de cometerem atos
tão cruéis quanto os que o Anjo contou? Cassie achava que pudesse haver exceções.
Uma hora ou outra teria de lidar com seus pais, então porque não treinar com
Marta? Foi em direção à porta e a destrancou. Fez um cara de quem não quer nada
com nada e a abriu.
–
Oi, Marta. Pra quê todo esse desespero?
–
Cassie, vamos para dentro.
As
duas entraram. Agora Cassie estava ficando mais preocupada e apavorada do que
estivera antes.
–
Eu sei que você sabe quem e o que eu sou.
–
Como assim, Marta? Quem você é? Claro que sei. Minha melhor amiga, poxa.
–
Não se faça de desentendida. Você sabe sobre o fim do mundo, o Diabo, os
Demônios.
Então Cassie não conseguiu mais
manter o fingimento e ficou com medo. Lembrou-se do seu pesadelo. Estava
prestes a sair correndo pelas portas dos fundos quando Marta finalmente falou:
–
Não se preocupe. Nem todos nós somos que nem a maioria. Inclusive, existe um
grupo de nós que luta contra todo esse mal que é feito aqui na terra. Nem todos
os que se tornaram demônios se tornaram porque foram maus, entenda. E esses são
os que fazem parte do nosso grupo. Eu faço parte dele. Somos chamados de o
exército dos mortos-vivos. É meio engraçado o nome, porém é o que somos. Somos
mortos, mas estamos vivos. Escolhemos esse nome pra ser engraçado então pode
tirar esse sorrisinho do rosto.
Cassie estava rindo agora. Rindo de
gargalhar. Que porra é essa? Exército dos mortos-vivos? “Isso por acaso é algum
daqueles sonhos dentro de outro sonho dentro de outro sonho que daqui a pouco
vou acordar?” - Pensou. Por fim, parou de rir e falou:
–
Meu Deus, se vocês forem tão bons em combater o mau quanto em escolher nomes de
grupos, estamos perdidos. - E voltou a rir.
–
É, engraçadinha. Mas deixa a parte da graça pra lá porque o problema é grande
mesmo. Apesar de muitas pessoas boas virarem demônios, nem todas se juntam a
nós. Muitas delas, inclusive, ganha privilégios do Diabo para que façam seus
jogos de tortura em troca deles. E por isso, nosso número é muito inferior ao
resto dos demônios.
–
Huuummm. Vendo por esse ponto de vista, até é aceitável a decisão de Deus. -
Cassie deixou escapar.
–
Não fale isso. Muitos de nós não merecemos isso que acontece aqui. Você ainda não
viu nada. Quando você sair pela rua e ver realmente o que eles fazem com os
outros, aí sim você vai perceber que nunca deveria ter dito isso.
–
Ok, desculpa. Foi meio desnecessário mesmo esse comentário. Agora me diga,
Marta, como você soube que eu sabia da existência de vocês?
–
Cassie, depois de muito tempo de amizade entre nós que eu pude ter certeza de
que eu podia confiar em você, eu usei uma habilidade que todos os demônios têm
e só podem usar uma única vez – a não ser que o Diabo nos dê novamente – de
poder se conectar mentalmente com alguém. Geralmente eles usam com seus
parceiros – quase como se fossem marido e mulher. Porém, eu usei em você. Isso
foi um pouco antes de você ter presenciado aquela cena do acidente. A partir
daquele dia, eu meio que fiquei pensativa a respeito de você, mas não dei muita
atenção. Porém, depois da visita do anjo – e eu ouvi e vi tudo – eu pude saber
sobre seu dom – e graças a Deus – em saber que nem tudo está perdido e que
temos Deus novamente do nosso lado. Assim que presenciei seu pesadelo e seu
nível de medo, achei que era hora de vir aqui e conversar com você para te
mostrar que você não está sozinha. Cassie, acredite no que Rafaela disse: Não
pode-se confiar em nenhum demônio. Nenhum mesmo. Levamos anos e anos para saber
se podemos aceitar algum em nosso grupo. Por isso, em hipótese alguma, você
poderá falar algo para seus pais. Só depois de termos certeza se eles estão do
lado do bem ou do mau, que então poderemos trazê-los ou não para nosso lado. Me
prometa que fará isso.
–
Mas...
–
Me prometa, Cassie. Por favor. Pela nossa amizade, pelo bem da terra e do mundo
em que vivemos. Me prometa.
–
Ok. Eu prometo me esforçar ao máximo.
–
Beleza. Vou aceitar isso. Agora preciso ir. Tenho algumas atividades sociais
para prestar às pobres almas atormentadas por essas criaturas demoníacas. Se
precisar de algo, saiba que estou aqui. Beijo.
Marta
deu um beijo na bochecha de Cassie. Ao sair pela porta se virou e disse:
–
Ah, e eu também pude sentir sua felicidade ao me ver na forma demoníaca. - Se
virou e saiu.
Cassie deu novamente uma gargalhada
estridente, porém agora se sentia mais aliviada em saber que não estava mais
sozinha. Claro que ainda estava triste pelos seus pais, mas pelo menos agora
ela tinha sua melhor amiga como companheira. Se sentou à mesa e terminou seu
café.
Depois disso, Cassie apenas se
vestiu, pegou sua mochila e saiu de casa. Precisava de um lugar tranquilo pra
refletir e pensar. Foi ao parque próximo de sua casa, deitou na grama e ficou
olhando para o céu nublado e cinza. - Meu Deus, que loucura. - Pensou. E riu, porque Deus tinha permitido tudo isso.
Sentiu raiva dele. Por que diabos ele escolheria esse tal de livre arbítrio fodido
ao invés de ajudar seus filhos? Sua criação? Ela ficou com essa raiva em seu
peito por alguns minutos até que desabou a chorar. Agora, ela havia entendido o
recado de Rafael. Se ela demonstrasse aos seus pais qualquer pista que pudesse
revelar que ela sabia da existência dos demônios, seria o fim. O fim dela, o
fim da salvação dos humanos.
Depois que as lágrimas cessaram, ela
pegou suas coisas e voltou para casa. Agora mais calma, decidiu que precisaria
enfrentar seus pais. Não só eles, como muitos outros iguais ou piores. Chegou
em casa, preparou um sanduiche e um copo de café e sentou em frente à
televisão. Decidiu que ficaria lá até seus pais chegarem. De hoje, não passaria,
e ela teria de ser forte e saber se controlar.
Eram quase dez horas da noite quando
seus pais chegaram em casa. Ela acabou adormecendo na sala e tudo ocorreu fora
do planejado. Seu pai foi em sua direção e carinhosamente lhe acordou. Ao abrir
os olhos, Cassie deu um pulo e um berro tão alto que até ela mesma se assustou
com sua reação.
–
O que houve, filha? Pesadelos? - Perguntou seu pai.
– Mais ou menos, pai. Algo do tipo – respondeu.